Fruto da parceria entre a Casa Museu Eva Klabin e o Instituto Inclusartiz, o programa de residência artística “ÉDEN” chega a sua segunda edição com a exposição “Ultramar”, da artista capixaba Kika Carvalho. A individual, que está aberta ao público na Casa Museu Eva Klabin até 25 de fevereiro de 2024, reúne cerca de 20 obras — incluindo trabalhos inéditos —, entre pinturas, cianotipias, instalações e colagens desenvolvidas a partir da profunda pesquisa da artista sobre a cor azul e a sua função nas relações materiais, históricas e sociais ao longo dos séculos. A curadoria é de Lucas Albuquerque.

Para o curador, a oportunidade de trabalhar junto ao acervo da coleção da Casa Museu Eva Klabin permite pensar projetos curatoriais e de pesquisa capazes de deslocar a produção contemporânea para outros lugares de significação, ampliando o diálogo entre tempos e a fortuna crítica dos artistas convidados:
“A escolha do trabalho de Kika se dá justamente nesse lugar: possibilitar a revelação de dados inerentes ao seu interesse de pesquisa poética que por vezes se vê sublimado pela velocidade do cotidiano. Nesse sentido, o período de pesquisa junto à coleção tão rica instaura outros tempos, tanto de produção como de percepção, que a artista, por sua vez, visa a subverter em sua ocupação. Promover novas leituras não só do presente, mas também do passado, em um pensamento espiralar”
Natural de Vitória (ES), Kika Carvalho elegeu o azul como objeto de sua pesquisa, ora o relacionando com as paisagens da cidade-ilha onde nasceu e viveu boa parte de sua vida, ora com aspectos da história da pintura. Fazendo uso deste dado afetivo, Kika incorpora o azul como dado de uma memória fotográfica longínqua, que interpela não apenas suas lembranças pessoais como mulher negra, mas também a história brasileira e suas relações além-mar, na grande Kalunga — palavra da língua banto que significa lugar sagrado, de proteção.

O conjunto de obras selecionado pela curadoria para integrar “Ultramar” conta com trabalhos profundamente atravessados pela vivência da artista em Luanda, capital da Angola, onde participou de uma residência artística em 2022, sendo este o seu primeiro atravessamento Atlântico. Para esta exposição, Kika também preparou obras inéditas que refletem suas experimentações em outras técnicas para além da pintura, como a cianotipia e processos de fotografia analógica. Estes trabalhos propõem ainda um confronto entre a utilização simbólica da cor azul no Egito antigo e sua posterior valorização na imagem sacra cristã, por meio do diálogo direto com itens presentes no acervo da Casa Museu Eva Klabin. Para Kika:
“Eu produzi trabalhos específicos para esta exposição porque acredito que essa é uma oportunidade única de dialogar face a face com peças de uma cultura que contribuiu muito para a minha pesquisa e para o meu fascínio pela cor azul. É também uma ocasião oportuna para discutir sobre a história da arte e sobre a guerra de narrativas que cerca o deslocamento do Egito do continente africano. Quando pensamos nos feitos dos antigos egípcios, essa história se desloca daquele continente ou até mesmo do Planeta Terra, abrindo a possibilidade de extraterrestres terem contribuído com grandes feitos. Algo que me fascina muito.”

Distribuída pela casa, a coleção de peças egípcias da Casa Museu Eva Klabin, uma das mais notáveis sobre o tema no Brasil, resguarda consigo o fôlego de uma civilização cujos vestígios materiais denotam uma cultura altamente complexa. Na esteira do exotismo intrínseco ao olhar que repousa sobre o Oriente e o continente africano, a coleção de Eva Klabin é constituída na década de 1950, posteriormente à descoberta da tumba de Tutancâmon em 1922. Este importante achado arqueológico é uma das poucas sepulturas reais encontradas intactas e desencadeou uma completa egitomania pelo mundo, ressoando na arquitetura, na fotografia, no cinema e nas artes visuais. O marco histórico forneceu arcabouço material e científico cuja recepção reforçava um desejo de busca pela origem espelhada em um outro, entendido como arcaico – como diria o historiador da arte alemão Aby Warburg, numa alegoria do inconsciente do tempo.
Curiosamente, a coleção de Eva Klabin se constitui de objetos que não são, contudo, provenientes de escavações arqueológicas oficiais. Guiada por especialistas em arte, a paulistana de alma carioca reuniu pouco mais de cinquenta objetos que revelam seu interesse por um tempo histórico alargado, que vai desde a Dinastia I até o período Ptolomaico. Entre eles, duas peças se destacam. A primeira é a Estela funerária de Tutemés (cerca de 1391 – 1353 a.C.), oriunda da tumba do Rei Tutemés IV, da Dinastia XVIII (1401-1391 a.C.), que possui como função religiosa apresentar o rei morto ao pós-vida, representando e sendo, por si mesma, uma oferenda devocional aos deuses. Em sua parte inferior, observamos as figuras do soberano e sua esposa, trajados de gala e sentados diante de uma mesa de oferendas sobre a qual Tutemés estende a mão esquerda. Acima, vemos a cena em que o rei é representado de pé, com os braços erguidos em adoração ao deus Osíris, senhor e juiz da vida após a morte, portando sua típica coroa Atef e segurando em suas mãos o mangual e o cajado. Diante do santuário, uma mesa repleta de oferendas. Sobre as duas cenas, o sinal Shen, símbolo da eternidade, paira sob um cesto com o olho de Hórus, simbolizando poder e proteção. Um arco enlaça toda a placa. Parte das cores originais ainda permanecem na matéria. Em particular, um azul pulsa atrás de hieróglifos com o nome do casal real e uma prece endereçada a Osíris, “O Senhor da Terra Sagrada”.
Um outro olho, tridimensional, testemunha os movimentos da história e repousa sobre os nichos da casa. O olho de máscara mortuária (304 a.C. – 395 d.C.) é fragmento de um touro sagrado mumificado composto por três elementos distintos montados para incrustação: pedras de calcário cristalino, obsidiana e lápis-lazúli. Este último desempenhava função simbólica privilegiada na sociedade egípcia, denotando a hierarquia social do indivíduo – devido ao alto custo de comercialização da pedra em virtude de sua escassez em solo egípcio e importação da Mesopotâmia –, e constituindo-se como significado religioso. Sua coloração intensa estabelecia um paralelo com o céu e o plano superior, integrando o conjunto hierárquico que simbolizavam os deuses: o ouro, metal divino que nunca enferruja, era visto como a carne dos deuses; a prata representava os ossos; o lápis-lazúli, por sua vez, era fino e delicado como os seus cabelos.
As relações formais, materiais e simbólicas que estabelecem uma ligação entre o Egito e a história da arte ocidental são calcadas na recepção da antiguidade clássica pelos gregos e romanos, mas não só isso. Na casa, as numerosas peças que representam a Virgem Maria apontam para o uso como pigmento pictórico do lápis-lazúli, material ainda muito caro nos dias de hoje, cujo valor, na época, era equivalente ao do ouro. O azul ultramar, obtido por meio da trituração do lápis-lazúli, tem sua origem etimológica no latim ultramarinus (além-mar). Entre os séculos XIV e XV, seu caminho de entrada na Europa se dava pela Itália a partir das minas do Afeganistão, refazendo assim as rotas utilizadas pelos egípcios durante a mineração da rocha. Essa circularidade territorial penetra no nome do pigmento e banha a história da arte na relação com o outro, aquele que se coloca para além do horizonte.
Sob as lentes do contemporâneo, tal recepção do além-mar adquire novos embates discursivos tanto no que tange à cultura simbólica egípcia e sua reverberação na Europa, quanto no plano material e historiográfico. Museus e coleções mundo afora refletem não só sobre a condição de chegada e permanência de objetos frutos da colonização, mas também revisam suas narrativas baseadas em um ocidente que se faz pela apropriação e fragmentação da história, submetendo o continente africano ao estigma da subalternidade. A noção do Egito como berço da civilização ocidental se fortalece pela figura do historiador e arqueólogo James Henry Breasted, que em publicações como Ancient Times, a History of the Early World (1916) e The Conquest of Civilization (1926) assinalava erroneamente o norte da África e o sudoeste asiático como povoados por pessoas de pele clara, compreendido como “brancos”. O Egito antigo deveria, sob distorção de tais lentes, ser parte constituinte da criação dessa civilização. Seus estudos tornaram-se canônicos para o currículo das universidades e nas pesquisas norte-americanas em um momento de ascensão do país, alastrando-se globalmente e sendo, gradualmente, assimilados. Fagulhas que prenunciavam o cheiro da fumaça que sentimos hoje podem, contudo, ser percebidas anos antes. No fim do século XIX, o pintor americano Edwin H. Blashfield realizava o mural A evolução da civilização (1890-1900) na Biblioteca do Congresso em Washington, D.C., estabelecendo uma progressão que se iniciava no Egito antigo e desembocava nas Américas.
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De que forma a cor pode funcionar como mote para uma investigação capaz de pautar relações não apenas materiais mas, também, históricas e sociais? Frente a esta questão, convidamos Kika Carvalho (Espírito Santo, BR, 1992) para a segunda edição do programa ÉDEN, que visa a interlocução do acervo da Casa Museu Eva Klabin com a produção contemporânea. Entre processos pictóricos e fotográficos, a artista examina a relação da cor azul como índice e marca de uma memória da negritude. Partindo de sua pesquisa acerca do azul na história material, Kika conecta a cor com a vista do horizonte banhado pelo mar da ilha onde nasceu e viveu. Fazendo uso desse dado afetivo, ela o incorpora como uma memória longínqua, que interpela tanto suas lembranças pessoais, como a história brasileira e suas relações além-mar na grande Kalunga – palavra da língua banto que significa lugar sagrado, de proteção.
Em pinturas e objetos que variam do realismo fotográfico à abstração formal, a artista cria imagens que versam sobre a condição da negritude no Brasil, unindo suas memórias às cenas do mundo. Figuras formadas de intenso azul ressoam o comentário “tão preto que chega a ser azulado”, cujas pretensões dúbias se escondem sob a constatação de um desvio de cor. Imergindo seus personagens e a si mesma — afinal, boa parte das figuras femininas são quase autorretratos, com fisionomias que se iniciam pelo espelhamento das formas de sua criadora — no extremo dessa constatação, a artista dá a ver um mundo sob lentes por vezes azuladas, ressoando nelas uma ar nostálgico, fantasmal, de um tempo que se assemelha às fotografias de um passado distante. Em outras, despe-se da lente para contrastar a saturação de sua paleta com delicadas e numerosas variações de branco. Em ambos os empreendimentos, a radicalidade da proposição elimina o preto puro, fazendo do balanço cromático de suas telas um espectro que vai do branco mais claro ao azul mais intenso.
É comum a relação de espacialidade estabelecida entre as figuras de Kika e o mar, que parece funcionar como a nascente de um conjunto de vidas e narrativas que o circundam, mimetizando a história da artista, cuja vida tem o oceano como testemunha. Há, ainda, uma imagem que se repete em variações, com pessoas representadas de costas a encarar um fundo fraturado entre o mar e o horizonte. Voltando-se para o além, conjecturam ou, prefiro acreditar, conversam com aqueles que fizeram a travessia; voltam-se, também, para o meio pictórico, formado do pigmento além-mar e que conta o próprio nascimento de sua carne. A cena expõe o detalhe de trançados e texturas capilares adornadas com pendentes de cabelo que carregam narrativas que o oceano resguarda consigo, inscritas no cruzamento dos filetes das tranças. Nesse invólucro de poder cromático, vislumbramos os cabelos de deuses e deusas, respeitando o sistema de crenças egípcios.
Dentro do conjunto poético criado pela artista, a cianotipia, técnica de revelação manual para imprimir negativos monocromáticos em tons de azul, flerta com a fotografia. Kika se vale desse processo para produzir imagens nas quais luz e sombra imprimem signos, quase amuletos, de um mundo encantado novamente, capaz de reverter o fluxo linear do tempo. Este, por sua vez, abre um outro, espiralar, onde o presente revê o passado ou mesmo o refaz sob uma ideia de montagem – honrando, claro, a energia dos signos que evoca. Neste contexto, o pessoal e o coletivo se alimentam e se confundem. Estabelecem um reflexo poeticamente retorcido da aliança entre Brasil, África (especialmente Angola, onde a artista passou algumas semanas), e Europa. Alocados em meio à coleção de Eva Klabin, que por sua vez também remontou a história sob a ótica e as necessidades de seu tempo, propõem uma nova configuração.
A exposição Ultramar toma a casa-museu e sua história como combustível poético para realizar diálogos, sugerir deslocamentos conceituais nos objetos que encenam a vida da colecionadora e propor situações imersivas que funcionam como portais simbólicos para investigar novos modos de apreender e habitar este espaço. A presença do azul convida a uma nova percepção da coleção, reordenada de forma inédita para destacar as relações cromáticas desta cor no acervo, priorizando suas aparições nas sociedades orientais como um todo, e, principalmente, pensar como a coleção egípcia pode ser apresentada de maneira complexa e multifacetada. O percurso se encerra no quarto, onde um encontro íntimo se estabelece entre visitante e obra. Entre quatro paredes, a dama se apodera do aposento e se cobre, deixando de fora apenas seus olhos, revertendo a lógica de quem é visto e quem vê. Mais um olhar do lado de lá que se estabelece na relação de poder e eternidade, tal qual o olho de Hórus.

Kika Carvalho (Vitória, Espírito Santo, 1992). Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Graduada em Artes Visuais (Licenciatura) pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. Sua prática artística se materializa em diferentes suportes, técnicas e escalas, com uma pesquisa atenta em torno da cor azul, que pode estar relacionada tanto com as paisagens da cidade-ilha onde nasceu, como com aspectos da história da pintura. Sua obra é atravessada por questões ultramarinas de presença e ausência, tão caras à diáspora Atlântica. Sua produção também é entrecruzada por algumas experiências, como a prática de pintura urbana e a arte educação; além da participação em programas de residências artísticas, como: Angola AIR – Espaço Luanda Arte (2022); Outra Margem (2021); Vila Sul – Instituto Goethe de Salvador (2020); e Malungas (2018), com a artista brasileira Rosana Paulino.

Lucas Albuquerque (São João de Meriti, Rio de Janeiro, 1996). Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ. Bacharel em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestre em Processos Artísticos pelo PPGARTES/ UERJ. É curador independente e pesquisador, tendo sido curador-organizador da Galeria Aymoré (Rio de Janeiro). Atualmente, é também curador do programa de residências artísticas do Instituto Inclusartiz, estabelecendo conexões com artistas, curadores e pesquisadores entre o Brasil, Reino Unido, Holanda, Espanha e França. Realizou a curadoria das exposições “Muamba: Brazilian Traces of Movement” (2023), na Ruby Cruel (Londres, U.K.); “O Sagrado na Amazônia” (2023), com Paulo Herkenhoff, e “Gamboa: nossos caminhos não se cruzaram por acaso” (2022), no Instituto Inclusartiz (RJ); “USTÃO” (2023), na Casa Museu Eva Klabin (RJ); “Futuração” (2021); e “Bordas da ausência” (2019), na Galeria Aymoré (RJ), além de outras individuais e coletivas.